Falas de um coração amargurado diante de uma vida de nenhum proveito
Eu confesso que sou pecador, mas nao louco!
Não foi sem pecado que cheguei aqui. Devo a todos que comigo vivem ou conviveram. A uns causei dor, a outros, tristeza. Ofendi alguns em sua humildade, falei mal de outros. Fracos foram por mim derrubados, desorientados, confundidos. A todos, em todo tempo, por onde andei, causei mal, deixando rastro de sofrimento. Para que tenho vivido?
Filho de pais honestos, maldisse a amaldiçoei a vara da correção, merecendo-a em minha iniqüidade. Tendo sido sustentado em fartura, gratidão nenhuma se achou em meu viver. Orgulhoso, avarento e egoísta, sonhei em ser mais e melhor que meus pais, irmãos, amigos. Desprezei os menos inteligentes, subjuguei com astúcia os perdedores. Impaciente, desisti de admoestar quem andava em erro, preferindo a glória da liberdade à humilhação da batalha. Sem entender o Evangelho, discordando de tudo que ouvia, preferi desistir do ministério à humildemente aceitar minha situação de ignorância e aprender com paciência, na dor que a vida me preparava. Não suportei dor jamais. Não suportei humilhação. Daí meu casamento fracassado. Instigado pela mulher, cresceu o velho Adão. Ira, ódio, raiva, choro, tristeza, vergonha enchiam-me o coração. Deus havia falhado comigo. A mulher que sonhara, perdi. A que ganhei, nunca conquistei. Sem amor, a avareza do consumo enchia os vazios do coração, enquanto esvaziava os bolsos. Filhas aflitas na confusão de emoções se nos foram dadas. Pobres crianças, puras, sem culpa. Tivessem escolha e seu pai seria outro certamente. Lar não tiveram. Instabilidade, briga, discórdia, amargura seguia-se dia-a-dia, intercaladas por breves momentos de tranqüilidade. Mas ainda assim, não foram elas que desistiram ou desgostaram. Fui eu. Cansado da dor, num raio de esperança que me dominou num amor jamais imaginado, joguei tudo aos céus, optando pela aventura de uma vida realizada e feliz. Experimentei os céus na terra, mas por breve tempo. Não foi sem pecados que conquistei tal amor. Tristezas causei a muitos, induzindo-os a pecarem, por minha culpa. O castigo merecido, porém, não me veio da forma esperada. Veio pior: na dor de reconhecer a culpa. A angustia de ter causado dor nas pequeninas, enquanto sonhava com minha alegria, avultou-se a ponto de dominar meu ser. À distancia física seguiu-se a emocional. Longe dos olhos e do coração de minhas filhas, senti-me só. A alegria de nova filha nunca pode suprir o buraco das raízes arrancadas. A dor de ser o culpado inquieta a alma e faz desanimar. Dívidas infindas desanimam a continuação da vida. Que Deus cure as feridas que causei, compense as perdas que deixei, retribua em bênçãos aos que fiz sofrer, console os que deixei de consolar, oriente aos que não tive paciência de ensinar, levante aos que eu derrubei, apague o meu caminho da historia. Sob teu perdão, quero descansar, meu Pai. Se não posso eu dar pagas ao meu pecado, pois é muito, preciso de ti, meu Salvador. Tua dor, humilhação e vergonha – coisas que nunca suportei – são-me agora a única salvação. Preciso de ti, de teu amor e perdão. Sem merecer, sem crédito algum, venho a ti, envergonhado e angustiado, suplicar-te misericórdia. Que o mundo volte à sua tranqüilidade, assim que eu dele me afastar. Que meu nome seja esquecido, juntamente com todos os mortos que voltam à terra.
Silêncio. Basta de palavras, de pensamentos,… de pecados!