A Dor da Vida
- Ai, que dor, doutor! Ajuda-me! Não posso mais suportar tamanho sofrimento.
- O que te incomoda, amigo? Onde te dói?
- Dói a vida, dói a alma, dói tudo. A consciência não me permite a paz que busco a todo custo. Dói-me ver tantas injustiças, perversões de direito. Dói-me ver tanta riqueza acumulada nas mãos de alguns que, sorrindo, oprimem aqueles dos quais chupam o sangue. Dói-me viver neste mundo fazendo-me parte de um sistema materialista que, esquecendo-se do valor da vida usa o ser humano e toda criação para tirar-lhe proveito próprio. Egoísmo, ganância, insensibilidade alimentam um mecanismo de produção contínua de riquezas, consumo, luxo, supérfluos infindos – maldita produção. Dói-me ver-me envolvido e absorvido por tal perversão, fazendo-me escravo deste mundo, ao qual vivo a servir. Dói-me viver. Este é o meu mal.
- Não, amigo! Enganas-te. Teu mal não é viver. A dor da vida, que agora sentes, ilude-te. A dor que sentes não te é prejudicial. Ao contrário, ela é sinal que para ti ainda há esperança. A vida, no teu caso, não está perdida. A dor é sinal de vida.
- Então dá-me um analgésico, para que possa viver de fato!
- Jamais, meu bom amigo! De analgésicos o mundo está cheio: bebidas, drogas, jóias, riquezas, clubes, jogos… Se não te bastaram, é porque és demais sensível a esta dor – a dor da vida. Feliz és tu! Seres insensíveis somente conseguem analgesia nestas coisas. Àqueles, porém, a quem foi dado sentir tal dor em toda sua profundidade, não podem, sob pena de negarem-se à vida, buscar analgésicos mais potentes. Morfina pura para tais seres seria ainda insuficiente. Sucesso profissional, dinheiro, status, títulos, sexo… nada seria capaz de acalmar tal dor. Felizmente! A dor é um sintoma salutar. Ela nos faz descobrir a ferida e voltar a atenção a ela; doutra sorte, esquecendo-a ou desprezando-a evoluiria ela, tomando, membro após membro, todo corto. Pequenas mentirinhas, meias verdades, evoluíram gradualmente para insensibilizar toda consciência. Insensível a consciência, progredirias em tal direção a passos maiores: roubos legais aos superiores e opressão mascarada aos que lhe são inferiores tornar-se-iam meios necessários à sobrevivência. Finalmente, tal caminhada afastar-te-ia tanto da verdadeira vida, que mesmos passos exageradamente largos tornar-se-iam normais e aceitáveis diante de ti e do mundo em que vives: poderias acumular bens, escondendo-os dos necessitados e dos impostos governamentais, poderias alegrar-te em tuas conquistas, rindo desprezadamente dos que, movidos pela consciência, desistiram de competir contigo nesta carreira. Se ainda a morte não te viesse ceifar, poderias chegar aos extremos de publicar livros ensinando a outros a tal arte de ser bem-sucedido nesta vida – como se a natureza humana já não soubesse disto o suficiente. Acontece que, completamente anestesiado nos analgésicos que escolheste, tu já nada saberias da verdadeira vida, de sua dor, de seu sentido. Serias, na verdade, um louco, em coma profundo, irremediável – morto, para ser honesto. No teu caso, porém, meu bom amigo, as coisas não estão perdidas. Se sentes ainda, é porque a vida verdadeira ainda pulsa. Mesmo estando ela hoje parcialmente anestesiada por tantos analgésicos que te cercam e te consomem, há ainda esperança. Dedica-te diligentemente a deixar tais analgésicos e sentirás a vida em sua total realidade. Somente então conseguirás encontrar cura para teu mal. Precisas urgentemente de antibiótico definitivo, não de analgésicos temporários.
- Mas, doutor, a dor que sinto é por demais insuportável. Ando dia a dia a cambalear, gemer, rastejar como um verme, vendo outros crescerem, alegres, sorridentes, envolvidos em tantos afazeres, planos, projetos. Eu, no entanto, mal posso suportar o dia de hoje, pois meus planos fracassam diante da sabedoria dos sábios deste mundo. Minha consciência não me permite competir com eles, pois usam instrumentos dos quais não posso compartilhar, sob pena de perder o sabor da vitória na vergonha secreta da culpa. Quanto mais prosperam meus páreas, maior minha dor. Como posso sem analgésicos? Se não sirvo para viver neste mundo, para que vivo ainda?
- És de fato humano, meu amigo, fraco, como eu. Tua dor afetou teus pensamentos, confundiu-te. Confundes a dor com a doença. Se a dor aumenta, pensas estar piorando a doença. Esqueces-te que, sob analgesia, a dor é antes um indicador do nível anestésico que da doença propriamente. Quando sentes, pois, não é porque estás mais doente, mas porque o nível de analgésicos está insuficiente. Tens, portanto, uma escolha: se realmente desejas analgésicos, aprende isto da sabedoria popular: quando a tristeza chegar, afunda-te no álcool, no sexo, no trabalho, nos estudos… em que desejar, e, então, esquecendo-te da dor, desfruta das sensações opióides endógenas que brotam de tal exercício. Mas se procuras – como entendo – resolver teu problema, temos de escolher um caminho mais penoso. Aumentar a dose dos analgésicos talvez dar-te-ia momentos de alívio, mas jamais remissão da dor. Sigamos, talvez, o conselho de Hanehmann[1] e, ao invés de dipirona, experimentemos dar oportunidade à dor, aumentando-lhe ainda a sensibilidade, para que, percebida em toda sua grandeza, aponte com precisão qual a origem e causa deste sofrimento. Afinal, é a causa que buscamos, não o sintoma. Os teólogos diriam: permita à lei exercer o seu ofício, para, ao final, encontrar conforto no Evangelho. Se realmente desejas experimentar tal tratamento, senta-te confortavelmente e começa a refletir nas experiências que vamos compartilhar. Afinal, também tenho experimentado a dor que referes e tenho buscado, como tu, continuamente, solução. Se não desejas acompanhar-me nesta terapêutica, deixa agora este texto e não invista aí nem mais um minuto – pois isto te seria inútil perda de tempo. Comecemos por permitir-te conhecer-me em toda minha fraqueza e desespero.
[1] Pai da Homeopatia.